Uma folha em branco, um lápis com borracha na ponta e uma tarde com a avó bastam para começar. O genograma é um desenho da família em pelo menos três gerações. Ele usa sinais para pessoas, uniões e perdas, e linhas que mostram quem é próximo, quem brigou e quem se afastou.
Quase tudo o que aparece na busca é página de quem vende programa de computador. Este guia é para fazer no papel. Você vai saber o que cada sinal quer dizer, que perguntas fazer aos parentes e o que o mapa pronto mostra e o que ele não mostra.
- Por que esse mapa não é uma árvore genealógica
- De onde ele veio, do ecomapa ao genossociograma
- Os sinais básicos e as linhas de relação emocional
- Um roteiro de perguntas e os erros mais comuns na leitura
O que é genograma e como ele difere da árvore genealógica
A árvore genealógica responde quem descende de quem. O mapa da família pergunta também como essas pessoas viveram juntas: casamentos, separações, mortes cedo, doenças, mudanças de cidade e rompimentos.
Monica McGoldrick e Randy Gerson, autores do livro Genograms in Family Assessment, de 1985, o descrevem como um retrato gráfico da história e dos padrões de uma família. Quem procura a diferença entre genograma e árvore genealógica acha a resposta nas linhas. Na árvore, elas dizem parentesco; no mapa de McGoldrick, dizem também perto, longe e conflito.
| Critério | Árvore genealógica | Genograma |
|---|---|---|
| Pergunta principal | quem descende de quem | como a família vive e se relaciona |
| Gerações | quantas a pesquisa alcançar | ao menos três, no padrão de McGoldrick e Gerson |
| O que registra | nomes, datas e lugares | também doenças, perdas, rompimentos e mudanças |
| Linhas | só parentesco | parentesco e qualidade da relação |
| Onde nasceu | genealogia e história | terapia familiar sistêmica |
Esse mapa não significa diagnóstico. Ele não aponta doença nem culpado.
Serve para organizar o que a família conta, para que você, e um profissional quando for o caso, enxerguem o conjunto de uma vez. Quem já tem a árvore pronta fez metade do trabalho.
Murray Bowen, o ecomapa e o genossociograma
No começo do seu trabalho com famílias, o psiquiatra americano Murray Bowen desenhava diagramas para organizar o que ouvia nas sessões. Para ele, a família funciona como uma unidade emocional. Em 1972, o terapeuta Philip Guerin passou a chamar o diagrama de genograma.
McGoldrick e Gerson padronizaram os sinais em 1985, e a quarta edição do livro, de 2020, saiu com Sueli Petry como coautora.
O ecomapa é o vizinho mais próximo. Criado pela assistente social Ann Hartman e publicado em 1978, ele põe a família no centro e desenha em volta escola, trabalho, igreja, posto de saúde e amigos. Por isso genograma e ecomapa andam juntos na saúde da família: um mostra quem é a família, o outro, com quem ela pode contar.
Já o genossociograma pertence à psicogenealogia, linha da psicóloga francesa Anne Ancelin Schützenberger. Ela dá peso a datas e idades que se repetem entre gerações.
Na constelação familiar, o constelador pergunta por fatos parecidos, como quem morreu cedo ou quem foi excluído. O mapa é desenhado e conversado, e a constelação põe pessoas no lugar dos parentes. O Conselho Federal de Psicologia, na Nota Técnica nº 1/2023, considera essa prática incompatível com a psicologia.
Símbolos do genograma: pessoas, uniões, filhos e perdas
O padrão de McGoldrick e Gerson é o mais usado, e uma legenda no canto da folha ajuda quem for ler depois.
- Pessoas e idades: quadrado para homem, círculo para mulher, com a idade dentro. Um X marca quem morreu.
- Casamento e separação: uma linha horizontal cheia liga o casal, e um traço cortando essa linha indica separação. Dois traços, divórcio. Morar junto sem casar se desenha com linha tracejada.
- Filhos em ordem: descem da linha do casal, do mais velho, à esquerda, ao mais novo, e o adotado desce por linha tracejada.
- Gestações e perdas: gravidez em curso é um triângulo. Aborto espontâneo é um pequeno círculo cheio.
- Linhas de relação emocional: duas ou três linhas paralelas mostram ligação muito próxima, a pontilhada mostra distância e a de zigue-zague, conflito. Rompimento é uma linha cortada no meio.
Famílias recompostas, casais do mesmo sexo e filhos de reprodução assistida cabem na mesma folha. Quando faltar um sinal, escreva uma nota curta ao lado e mantenha a regra do começo ao fim.
Como fazer um genograma familiar, passo a passo
Separe uma folha grande, um lápis e uma borracha. O lápis importa. A primeira versão sempre muda depois da conversa com a tia que lembra de tudo.
- Comece por você: desenhe-se no meio da folha, com os irmãos ao lado e os pais acima. Deixe espaço em cima.
- Suba até os avós: o padrão pede três gerações, e os quatro avós entram mesmo sem nome.
- Pergunte aos mais velhos: quem morreu cedo, quem foi embora, quem deixou de ser citado, quem mudou de país e que doenças se repetem. Anote o ano de nascimento de cada um. E o de morte, quando houver.
- Marque as relações depois: as linhas de proximidade, distância e conflito entram com a estrutura pronta. Cada uma precisa de um fato que a explique.
- Deixe as lacunas visíveis: um ponto de interrogação vale mais que um palpite.
Nem todo parente quer falar, e o silêncio também conta. Respeite, volte ao assunto outro dia ou procure certidões e fotos com data no verso.
Numa pesquisa publicada em 2008 na revista Psicologia: Reflexão e Crítica, Naiane Wendt e Maria Aparecida Crepaldi avisavam às famílias que a montagem levaria cerca de uma hora.
O que observar no mapa pronto e os erros de leitura
Olhe primeiro para o que se repete: perdas na mesma idade, rompimentos em cadeia, uniões que terminam do mesmo jeito. Betty Carter e McGoldrick escrevem que certos padrões voltam numa mesma família. No estudo de Wendt e Crepaldi, o genograma na terapia familiar serve para envolver a família, rever dificuldades e esclarecer padrões.
Depois, evite os erros abaixo.
- Tratar a folha como laudo: o mapa levanta perguntas e não dá diagnóstico. Ler nele a causa de uma doença troca uma conversa por uma sentença.
- Procurar um culpado: o mapa não tem réus.
- Ouvir uma só versão: cada parente lembra a história de um jeito. Ouvir duas pessoas sobre o mesmo fato evita registrar a briga de um lado só, e quem conta a versão mais dura nem sempre é quem sofreu mais.
- Apagar quem saiu: ex-cônjuges, filhos fora do casamento, bebês que morreram e parentes excluídos também entram. A constelação dá atenção especial a quem foi excluído.
Muitas páginas prometem que o mapa revela a causa de dívidas, doenças ou fracassos no amor. Nenhum estudo mostrou isso. McGoldrick e Gerson tratam os padrões como hipóteses, ideias a conferir na conversa.
Dúvidas comuns sobre o mapa da família
As perguntas abaixo aparecem nas buscas do Google e em fóruns de estudantes de psicologia.
Quantas gerações deve ter um genograma? Pelo menos três: a sua, a dos seus pais e a dos seus avós, como propõem McGoldrick e Gerson. Com informação sobrando, suba mais uma.
Preciso de um psicólogo para fazer o meu? Para desenhar, não. Para ler perdas graves, abusos ou segredos, a companhia de um psicólogo ou psicanalista ajuda, porque a conversa pode reabrir dores antigas.
O mapa serve para doenças hereditárias? Sim, e esse uso tem nome: genograma médico. A equipe de saúde anota diabetes, câncer, doenças do coração e causas de morte dos parentes. Ajuda a conversa com o médico, sem substituir exame nem aconselhamento genético.
Posso usar um programa online? Pode, mas você estará registrando doenças e dados de outras pessoas. Papel ou arquivo no próprio computador guarda melhor a intimidade da família.
Conclusão: o lápis e a borracha
O mapa da família se faz a lápis porque muda a cada conversa, e a borracha serve para corrigir sem apagar ninguém. Quem decide o que fazer com as repetições é você.
Montar a folha pode trazer de volta perdas, segredos e violências. Se doer demais, faça com um psicólogo ou psicanalista ao lado, e em desesperança ligue para o CVV, no 188, de graça e 24 horas.
Estudar a família com método faz parte do Curso de Formação em Constelação Sistêmica. Quem da sua família ainda não tem lugar no desenho? Conte nos comentários abaixo o que achou.

