Numa caixa de sapatos, no fundo do armário, há uma foto do primeiro casamento do pai. Na constelação familiar, os ex-parceiros dos pais são as pessoas dessas fotos: quem namorou, noivou ou casou com seu pai ou sua mãe quando você ainda não existia. Para Bert Hellinger, elas continuam no sistema.
A ideia incomoda muita gente. Aqui você vê o que a constelação propõe, o que a psicologia sabe sobre filhos de pais separados e onde a lei entra.
- Quem faz parte do sistema familiar, segundo Hellinger
- Por que quem veio antes tem lugar e quem veio depois tem prioridade
- O filho que, na leitura da constelação, representa um ex excluído
- Como falar desse passado com os filhos, com limites e sem alienação parental
Quem são os ex-parceiros dos pais no sistema familiar
Essa lista aparece em A Simetria Oculta do Amor, de 1998, escrito com Gunthard Weber e Hunter Beaumont. Para dizer quem faz parte do sistema familiar, o texto cita os filhos, os pais e os irmãos deles. Depois vêm os avós e às vezes os bisavós.
Em seguida aparecem os que “abriram lugar” para alguém da casa. O exemplo dado é o ex-parceiro de um pai ou de um avô, mesmo separado, divorciado ou morto.
Na prática, isso inclui a ex-mulher do pai, o ex-marido da mãe e um noivado desfeito. Um namoro longo e marcante também conta. Os textos de constelação chamam esse grupo de parceiros anteriores dos pais.
Esse “pertencer” é uma proposta da constelação. Ninguém precisa conhecer, visitar ou gostar dessas pessoas, e para a abordagem basta reconhecer que elas existiram.
Pertencimento e hierarquia: quem veio antes e quem tem prioridade
Hellinger descreveu três regras, as ordens do amor. A primeira é o princípio do pertencimento: todos os membros têm o mesmo direito a um lugar, e ninguém pode ser apagado.
A segunda é a hierarquia. Dentro do mesmo grupo, quem chegou primeiro vem primeiro. Assim, a primeira esposa tem precedência sobre a segunda.
Parece contraditório. Logo em seguida, o autor afirma que um novo casal tem prioridade sobre o anterior, como o casal tem prioridade sobre os próprios pais.
A conta fecha assim: o primeiro casamento do pai merece respeito por ter vindo antes. O casamento atual merece prioridade por ser o presente.
Para Hellinger, a relação nova melhora quando o casal admite que o ganho dele foi a perda de alguém. Há também uma exceção clara. Quando um dos dois traz filhos de relacionamentos anteriores, o amor por esse filho vem antes do amor pelo novo parceiro.
O problema começa quando o padrasto ou a madrasta exige ficar à frente da criança. Ela chegou primeiro.
Quando o filho representa os ex-parceiros dos pais
Esta é a parte mais citada e a menos provada. Na leitura da constelação, quando alguém sofre desprezo ou esquecimento, um descendente pode passar a sentir o que essa pessoa sentiu.
O livro dá dois exemplos com ex-noivos. Num deles, um menino representava a primeira noiva do pai, tratada com injustiça. No outro, um menino sentia o desprezo que a mãe dirigia ao primeiro noivo dela.
Nos relatos de sessão, isso aparece num filho do segundo casamento que briga com o padrasto sem motivo claro. Às vezes aparece numa filha que repete a tristeza da ex-mulher do pai.
Nenhum estudo testou essa ideia. Ela pode ajudar a abrir uma conversa sobre o passado, mas não explica com segurança o comportamento de uma criança. Briga com padrasto tem causas mais simples, como ciúme, mudança de casa e luto pela vida antiga.
O que a psicologia e a terapia familiar dizem
A terapia familiar chega perto da constelação por outro caminho. A psicóloga americana Patricia Papernow, em Surviving and Thriving in Stepfamily Relationships, de 2013, lista cinco desafios das casas com padrasto ou madrasta.
Um deles diz que o outro pai ou a outra mãe, que mora fora de casa, é parte permanente da família. Outro fala da lealdade dividida: a criança sente que gostar do padrasto trai o pai que saiu.
Em 2010, o sociólogo Paul Amato revisou a pesquisa sobre divórcio. Publicou na revista Journal of Marriage and Family. Para ele, a separação sozinha não decide o futuro do filho.
Pesa mais a relação entre os ex. Pesam também o cuidado depois da separação e o dinheiro da casa.
Os marcos abaixo mostram o caminho do tema até hoje.
| Ano | Marco | O que muda para os filhos |
|---|---|---|
| 1998 | A Simetria Oculta do Amor, de Hellinger, Weber e Beaumont | ex-parceiros entram na lista de quem pertence ao sistema |
| 2010 | Lei 12.318, sobre alienação parental | desqualificar o outro genitor passa a ser ato previsto em lei |
| 2013 | Livro de Patricia Papernow | o outro genitor é tratado como parte permanente da família |
| 2018 | Portaria 702 do Ministério da Saúde | a constelação entra nas práticas integrativas do SUS |
| 2023 | Nota Técnica nº 1 do Conselho Federal de Psicologia | a prática é declarada incompatível com a psicologia |
As críticas são fortes. No trecho dos ex-noivos, o livro liga a homossexualidade a esse tipo de representação. A psicologia rejeita essa leitura, porque não trata orientação sexual como doença.
A Portaria 702 não prova eficácia, e a Nota do CFP diz isso com todas as letras.
Ex-parceiros dos pais na prática: conversa, limites e alienação parental
Constelação e terapia familiar concordam num ponto. O filho fica melhor quando ninguém some da história dele.
Com criança pequena, conte o fato em poucas palavras. Por exemplo, diga que o papai foi casado com outra pessoa, há muitos anos. Responda o que ela perguntar.
Hellinger também defendia que a intimidade do casal anterior não é assunto dos filhos. Falar dos ex-parceiros dos pais, então, é contar que eles existiram, sem abrir a vida íntima de ninguém.
Quem entrou depois não precisa competir com o passado. A nova esposa pode dizer à enteada que não ocupa o lugar da mãe dela. O novo marido pode citar o ex-marido da mãe com respeito, ou não citar.
Falar mal do outro pai na frente do filho tem nome. A Lei 12.318, de 2010, chama de alienação parental a campanha para desqualificar a mãe ou o pai da criança. A regra vale para os pais, os avós e quem tenha a criança sob sua autoridade.
Respeitar não é conviver: se o ex-parceiro foi violento, incluir a história dele não significa deixar a porta aberta. A segurança vem antes de qualquer ideia de pertencimento.
Perguntas comuns sobre parceiros anteriores dos pais
As dúvidas abaixo aparecem em buscas e em textos de quem estuda constelação familiar.
Quem faz parte do sistema familiar? Na constelação, filhos, pais, irmãos dos pais, avós e, às vezes, bisavós. Entram também os ex-parceiros de pais e avós.
Preciso incluir a ex-mulher do pai? Na proposta da constelação, incluir é reconhecer que ela existiu e teve um lugar. Isso não exige contato, visita nem amizade. Basta não apagá-la da história.
E se o ex-marido da mãe já morreu? O livro de Hellinger mantém o ex-parceiro morto na lista de quem pertence.
Falar do ex é alienação parental? Contar a história com respeito não é. A lei trata da campanha para desqualificar o pai ou a mãe da criança. Em dúvida concreta, procure um advogado ou a Defensoria Pública.
A constelação substitui a terapia de família? Não. Ela é uma prática integrativa sem eficácia clínica comprovada, e o CFP a considera incompatível com a psicologia.
Conclusão: a foto que pode sair da caixa
Aquela foto do primeiro casamento do pai não precisa ir para a parede da sala. Para a constelação, basta que ninguém a rasgue, e a psicologia confirma que o filho vive melhor sem guerra entre os ex-parceiros dos pais.
Nenhuma constelação substitui psicoterapia. Se a separação, o recasamento ou a briga entre ex pesam na família, procure um psicólogo ou psicanalista. Em violência doméstica, ligue 180, e em desesperança, o CVV atende pelo 188, de graça, 24 horas.
Esse tema faz parte do Curso de Formação em Constelação Sistêmica. Que história de antes dos seus pais ninguém contou para você? Conte nos comentários abaixo o que achou.

