Trauma transgeracional: o que é, sinais e evidências

Uma caixa de sapato no alto do armário guarda fotos que ninguém comenta. O trauma transgeracional é o sofrimento de pais e avós que chega a filhos e netos que não viveram a guerra, a fome ou a perda. A ideia nasceu na psiquiatria dos anos 1960.

Muita página trata o tema como se a dor estivesse gravada no DNA. Isso não está provado. Aqui você vê o que a pesquisa confirma, o que ainda é hipótese e o que a constelação propõe nos termos dela.

  • Por que geracional, intergeracional e transgeracional confundem tanta gente
  • O que os filhos de sobreviventes do Holocausto ensinaram à ciência
  • Até onde vai o estudo de Rachel Yehuda com epigenética
  • Sinais na família, leitura sistêmica e caminhos para não repetir

O que é trauma transgeracional, geracional e intergeracional

Os três nomes circulam como sinônimos, e trauma geracional é a forma mais popular em português. Na pesquisa com animais, intergeracional indica o efeito nos filhos, e transgeracional, o efeito em netos que nunca viveram o evento.

O trauma transgeracional não é um diagnóstico. O termo não está no DSM-5-TR nem na CID-11, os manuais de psiquiatras e psicólogos.

Também não fala só de uma casa. O trauma histórico é a versão coletiva, nomeada nos anos 1980 pela assistente social Maria Yellow Horse Brave Heart, que trabalhava com o povo lakota. Ela o definiu como ferida emocional acumulada ao longo da vida e entre gerações.

No Brasil, a lista é longa. Foram mais de três séculos de escravidão até a Lei Áurea, de 1888, e a Comissão Nacional da Verdade reconheceu, em 2014, 434 mortos e desaparecidos pela ditadura. A primeira pista de que a dor passava adiante, porém, veio do Canadá.

Filhos de sobreviventes do Holocausto: de onde vem a ideia

Em 1966, o psiquiatra canadense Vivian Rakoff estranhou quantos adolescentes atendidos tinham pais sobreviventes dos campos nazistas. Escreveu um artigo com três casos.

Depois, os filhos de sobreviventes do Holocausto formaram o grupo mais estudado do assunto. A suspeita tinha nome: traumatização secundária, a dor do pai que se instala no filho.

Em 2003, Marinus van IJzendoorn e colegas reuniram 32 amostras, com 4.418 participantes, numa meta-análise, o método que soma estudos para chegar a uma média confiável. Nos estudos bem desenhados com pessoas fora de tratamento, eles não acharam efeito do trauma dos pais nos filhos. A diferença apareceu só em amostras clínicas, de gente que já procurava ajuda por outros motivos.

Leitura do dado: a dor dos pais aumenta o risco quando há outros pesos na vida do filho, mas não condena a maioria.

Como a dor passa, então? Pelo jeito de cuidar. Um pai sempre em alerta ensina o filho a vigiar a porta, e o silêncio pesa tanto quanto o grito.

A caixa de sapato no alto do armário funciona assim. Todo mundo sabe que ela está lá, e ninguém abre.

Epigenética do trauma transgeracional: o estudo de Yehuda e seus limites

Epigenética é o conjunto de marcas químicas, como a metilação, que ligam e desligam genes sem mudar a letra do DNA.

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    Em 2016, a equipe de Rachel Yehuda, do Mount Sinai, nos Estados Unidos, mediu a metilação do gene FKBP5, ligado à resposta ao estresse. Participaram 32 sobreviventes do Holocausto e 22 filhos adultos, contra um grupo de comparação de 8 pais e 9 filhos.

    Nos sobreviventes, a metilação num ponto do gene era maior. Nos filhos, era menor, e os valores de pais e filhos andavam juntos. Os autores falaram em associação, e não em prova de herança.

    A amostra era pequena, o estudo olhou um gene só e não tinha como separar biologia de criação, porque os filhos cresceram com aqueles pais.

    Numa revisão publicada em 2018 na revista World Psychiatry, Yehuda e Amy Lehrner admitem o limite. Ainda não dá para atribuir esses efeitos em humanos a uma causa biológica única.

    O trabalho mais convincente vem de animais. Em 2014, Brian Dias e Kerry Ressler mostraram que camundongos treinados para temer um cheiro tiveram filhotes e netos mais sensíveis a ele. Eram camundongos.

    Por isso este texto recusa a frase “o trauma está no DNA”, repetida em muitos sites. Na epigenética do trauma, a sequência do DNA não muda, e as marcas sobre ela seguem em estudo em humanos.

    Critério Passagem pelo convívio Passagem epigenética
    Como acontece cuidado, apego, silêncio e regras da casa marcas químicas nos genes
    Prova em humanos décadas de estudos de apego e de família poucos estudos, amostras pequenas
    Exemplo citado meta-análise de 2003, 32 amostras Yehuda, 2016, gene FKBP5
    Dá para mudar? sim, com outro jeito de cuidar e terapia ainda em estudo

    Sinais de trauma transgeracional e a leitura da terapia familiar

    Não existe lista oficial de sinais. Os relatos clínicos citam silêncio sobre um período da história da família e regras rígidas com comida ou dinheiro. Citam também a hipervigilância, o alerta constante para um perigo que não está ali.

    Na terapia familiar sistêmica, essa herança emocional tem nome há décadas. Murray Bowen descreveu o processo de transmissão multigeracional, em que a ansiedade de uma família passa de pais para filhos. Ivan Boszormenyi-Nagy e Geraldine Spark, em Lealdades Invisíveis, de 1973, falaram das dívidas de lealdade dos filhos.

    A psicanálise chama o mesmo fenômeno de transmissão psíquica entre gerações.

    Na visão de Bert Hellinger, criador da constelação familiar, o descendente pode se prender ao destino de um parente excluído, o que ele chamou de emaranhado. A sessão propõe dar lugar a quem ficou de fora. Para a abordagem, a influência dos antepassados atua mesmo quando ninguém conta a história.

    O limite precisa ser dito. A Nota Técnica nº 1/2023 do Conselho Federal de Psicologia considera a constelação incompatível com a prática da psicologia. A Portaria 702 de 2018 incluiu a prática no SUS, mas isso não prova eficácia no tratamento de nada.

    Como quebrar o ciclo do trauma e quando buscar ajuda

    Quem procura como quebrar o ciclo do trauma pode começar pela própria casa. A meta-análise de 2003 mostra por quê: o que pula de geração é o jeito de cuidar, e jeito de cuidar se aprende de novo.

    • Conhecer a história: pergunte aos mais velhos datas, lugares e nomes da família. Saber diminui o peso do que nunca foi contado.
    • Notar a reação exagerada: grito ou pânico maiores que a situação.
    • Reparar com os filhos: depois de uma explosão, volte e diga o que aconteceu. A criança aprende que a briga tem conserto. Rotina previsível também protege.
    • Escolher limites: ninguém precisa confrontar avós idosos para fazer diferente.
    • Procurar psicoterapia: pesadelos e lembranças que invadem o dia pedem avaliação. Para estresse pós-traumático em adultos, a Organização Mundial da Saúde recomenda, desde 2013, terapia cognitivo-comportamental focada no trauma e EMDR.

    Ninguém precisa culpar pais ou avós.

    Perguntas frequentes sobre trauma geracional

    As dúvidas abaixo aparecem nas buscas do Google.

    Trauma transgeracional é o mesmo que estresse pós-traumático? Não. O estresse pós-traumático, ou TEPT, é um diagnóstico com critérios nos manuais e exige que a pessoa tenha vivido ou presenciado o evento. O trauma transgeracional é uma ideia de pesquisa sobre quem veio depois.

    Um exame de DNA mostra se herdei um trauma? Não existe exame com essa função. As medidas de metilação usadas por Yehuda servem à pesquisa com grupos e não dão laudo individual.

    Como me livrar de dores que não me pertencem? Separe o que é seu do que você aprendeu em casa, com ajuda profissional. A psicoterapia faz isso com método. A constelação propõe o mesmo por meio de representações, sem prova de eficácia clínica.

    Preciso descobrir toda a história da família para melhorar? Não. Muita história se perdeu, e o trabalho terapêutico acontece com o que você sabe e sente hoje.

    Conclusão: o que fazer com a caixa do armário

    A dor dos pais pode aumentar o risco dos filhos, sobretudo pelo convívio. A caixa de sapato do alto do armário pode ser aberta, aos poucos.

    Nenhuma constelação substitui psicoterapia. Se lembranças, medo ou tristeza pesam no seu dia, procure um psicólogo ou psicanalista, e um médico ou psiquiatra se houver sintomas no corpo. Em desesperança, o CVV atende pelo 188, de graça, 24 horas.

    Olhar a história da família com método é parte da Formação em Constelação Familiar e Sistêmica. Que história da sua família ainda está guardada na caixa? Conte nos comentários abaixo o que achou.

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