Algumas famílias guardam numa gaveta a foto de um avô de farda, e ninguém fala dele. Vítimas e perpetradores é como Bert Hellinger, criador da constelação familiar, chamou quem sofreu e quem causou um mal grave na história de uma casa. Para ele, os dois continuam pertencendo ao grupo, e quem some da memória volta no destino dos netos.
A ideia ajuda a pensar guerras, crimes e segredos antigos. Mas foi duramente criticada quando chegou aos casos de violência doméstica. Aqui você vê o conceito, o que a psicologia do trauma diz e onde fica o limite.
- De onde Hellinger tirou a ideia e o que ela não diz
- Por que o excluído voltaria e o que seria a paz entre os lados
- O que Ferenczi, Anna Freud e Ruppert dizem sobre o laço com o agressor
- Os erros, as críticas e o que fazer diante de violência hoje
O que a constelação chama de vítimas e perpetradores
Perpetrador é quem cometeu o mal: matou, abusou, roubou ou mandou fazer. O termo traduz o alemão Täter, que Hellinger usava para autores de crimes graves.
Nascido em 1925, ele foi soldado ainda adolescente na Segunda Guerra. Terminou a guerra como prisioneiro. O tema aparece em Ordens do Amor, livro de 1994, e ganhou peso nos grupos com alemães do pós-guerra, netos de quem matou e de quem morreu.
Vítimas e perpetradores, nessa visão, não significa que os dois tenham a mesma culpa. A constelação fala de pertencer, e não de absolver.
Quem agrediu continua responsável pelo que fez.
Excluídos do sistema familiar e a paz entre vítimas e perpetradores
Para a constelação, todo mundo da história tem direito a um lugar. Quem a família esquece deixa um vazio. Os excluídos do sistema familiar seriam lembrados por um descendente que repete algo do destino deles.
Esse neto não sabe que faz isso. A escola chama essa ligação inconsciente com alguém de outra geração de emaranhado.
Hellinger falou desse tema no livro de conversas Um lugar para os excluídos, feito com Gabriele ten Hövel. A foto do avô sai da gaveta e volta para a estante: é esse o gesto que a constelação propõe com quem foi esquecido.
Nas sessões, pessoas do grupo representam quem sofreu e quem fez sofrer. A imagem final mais citada é a dos dois deitados lado a lado no chão, como mortos que se reconhecem. Textos de consteladores chamam isso de vítimas e agressores em paz.
Hellinger desconfiava do perdão como saída. Para ele, o pedido de perdão do agressor joga mais um peso sobre a vítima, e o caminho é reconhecer o que aconteceu.
Essa imagem mostra mortos de uma guerra antiga. Hoje, a vítima pode estar viva. Levada para uma mulher que apanha agora, a imagem muda de sentido.
Identificação com o agressor: o que a psicologia do trauma diz
A psicanálise já tinha um nome para o laço entre quem sofre e quem fere. Sándor Ferenczi descreveu, num texto de 1933 sobre a confusão de línguas entre adultos e crianças, a criança que passa a sentir como o adulto que a agride.
Em 1936, Anna Freud chamou isso de identificação com o agressor no livro O ego e os mecanismos de defesa.
O psicólogo alemão Franz Ruppert, que trabalha com constelações, escreveu sobre a introjeção do perpetrador no livro Trauma, Bonding and Family Constellations, de 2008, em inglês. A vítima sem defesa guarda dentro de si a voz de quem a feriu. É um jeito de sobreviver.
Já o ciclo da violência entre gerações existe, mas não é regra. Numa revisão de 1987, Joan Kaufman e Edward Zigler estimaram em 30%, com margem de 5 pontos, a parcela de crianças maltratadas que maltratam os próprios filhos.
| Critério | Constelação familiar | Psicologia do trauma |
|---|---|---|
| Quem é o perpetrador | alguém do sistema que precisa de um lugar | quem causou o dano e responde por ele |
| O que liga os dois lados | um destino comum | medo, dependência e defesa psíquica |
| Repetição | o descendente repete o excluído | risco maior, nunca destino |
| Primeiro passo | reconhecer e dar lugar na imagem | segurança, depois o trabalho com o trauma |
| Prova científica | nenhum estudo controlado | décadas de pesquisa clínica |
A ordem da última coluna vem de Judith Herman, que no livro Trauma and Recovery, de 1992, põe a segurança como a primeira etapa da recuperação.
Erros comuns e a crítica da revitimização
Quem lê sobre o tema na internet encontra leituras que machucam. Estas são as mais repetidas:
- Dizer que a vítima atrai. Ninguém atrai agressão por lealdade a um antepassado. Esse argumento tira o peso de quem agrediu e põe em quem apanhou.
- Exigir perdão ou reconciliação. Reconhecer uma história não obriga ninguém a conviver com quem fez mal.
- Tratar todo agressor como ex-vítima. A maioria das crianças maltratadas não maltrata ninguém, e a infância difícil não apaga a escolha do adulto.
- Confundir compreender com desculpar. Entender de onde vem a violência numa casa não tira a culpa e responsabilidade do agressor. Ele responde pelo que fez, diante dos seus e na Justiça.
Revitimização é quando a pessoa ferida sofre de novo nas mãos de quem deveria ajudar, ao ser desacreditada, culpada ou posta diante do agressor.
O juiz baiano Sami Storch é o nome mais ligado ao direito sistêmico. Ele levou a constelação a processos judiciais.
Para o Conselho Regional de Psicologia do Paraná, a prática é inadequada nesses casos. Aponta uma falsa equivalência entre os lados e o risco de crise sem suporte na sessão.
É disso que trata o debate sobre constelação familiar e violência doméstica. A Nota Técnica nº 1/2023 do Conselho Federal de Psicologia considera a constelação incompatível com a prática da psicologia. A Portaria 702 de 2018 incluiu a prática no SUS, mas isso não prova que ela funcione.
Violência agora: proteção antes de qualquer sessão
Até aqui, o assunto foram histórias antigas. Se a violência acontece hoje, com você ou com alguém da casa, a ordem muda.
- Saia do risco imediato. Ligue 190 para a polícia, ou 192 para o SAMU se houver ferimento.
- Ligue 180 para orientação. A Central de Atendimento à Mulher é gratuita e funciona dia e noite. Ela indica delegacia, abrigo e rede de apoio perto de você.
- Disque 100 para denunciar. Violência contra criança, adolescente, idoso ou pessoa com deficiência vai para esse número, que aceita denúncia anônima.
- Peça medida protetiva. A Lei Maria da Penha, de 2006, permite pedir ao juiz o afastamento do agressor da casa e a proibição de contato. O pedido sai na delegacia, com a Defensoria Pública ou com advogado.
- Cuide de você depois. Com a segurança garantida, procure psicólogo ou psicanalista para cuidar do que ficou.
Constelação, se fizer sentido, vem bem depois. Nunca é condição de proteção.
Dúvidas comuns sobre vítimas e perpetradores
As perguntas abaixo aparecem em buscas e em blogs de quem estuda constelação familiar.
A constelação familiar culpa a vítima? A proposta, nos termos dela, fala em dar lugar a todos, e não em culpar quem sofreu. Mas textos com o nome de Hellinger sugerem que a vítima tem parte no que viveu, e essa leitura deve ser recusada.
Vítima e agressor na constelação familiar são iguais? Não: Hellinger pedia lugar para os dois na imagem, mas pertencer não iguala culpa, e só um lado escolheu ferir.
O que fazer com perpetradores na família antiga? A constelação propõe reconhecer que eles existiram, sem esconder nem enaltecer o que fizeram. Se a história pesa no seu dia, um psicólogo ou psicanalista pode acompanhar esse trabalho.
Posso constelar se ainda convivo com o agressor? Não como primeiro passo. Primeiro vem a proteção, depois o acompanhamento psicológico. Ficar diante do agressor, mesmo representado, pode trazer a violência de volta ao corpo.
Conclusão: a foto que sai da gaveta
A foto do avô de farda pode sair da gaveta, com o que ele fez e com quem sofreu por isso. A constelação propõe esse olhar para vítimas e perpetradores do passado. No presente, proteger quem está em risco vem primeiro.
Nenhuma constelação substitui psicoterapia nem proteção: se você vive violência, ligue 180, ou 190 em risco imediato, e procure um psicólogo ou psicanalista. Em desesperança, o CVV atende pelo 188, de graça, 24 horas.
Estudar o tema com esses limites faz parte do Curso de Formação em Constelação Familiar. Que história da sua família ainda ninguém conta? Conte nos comentários abaixo o que achou.

